Os benefícios da normalização para o uso do BIM no Brasil

Atualizado: 13 de dez. de 2021


Créditos: Banco de imagens


O uso do BIM no setor da construção civil está em franca expansão. Já é consenso que a Modelagem da Informação da Construção, ou o Building Information Modelling – BIM tem sido cada vez mais utilizado no setor, sobretudo em obras que buscam por resultados relacionados ao uso racional de recursos, aumento da produtividade, cumprimento de prazos, entre outros benefícios obtidos com a adoção desta inovação tecnológica disruptiva. A Modelagem da Informação da Construção torna mais eficiente todo o processo necessário e inerente à realização de empreendimentos, desde a concepção do projeto, passando pelas etapas de planejamento, orçamentação, instalação do canteiro de obras, construção e entrega, ultimando com etapa de operação e manutenção – a mais longa do ciclo de vida de um empreendimento. Neste contexto, facilita o diálogo entre todos os elos envolvidos, promove facilidade de integração multidisciplinar, mas também exige mudanças comportamentais.


Frente aos desafios inerentes à necessidade de estabelecer referenciais mundiais para o gerenciamento das informações em projetos desenvolvidos com o uso do BIM, diversos países pelo mundo têm elaborado normas técnicas – um movimento que vem se tornando mais intenso no decorrer dos últimos 10 anos. No Brasil, a norma ABNT NBR ISO 19650 segue tal movimento e atualmente está em fase de elaboração.


Falar em normalização no Brasil não é tarefa fácil, especialmente quando a Norma, neste caso a ISO 19650, traz mudanças comportamentais que mobilizam todos os envolvidos. Por outro lado, a implementação de processos de gerenciamento da informação em escritórios e empresas de AEC - Arquitetura, Engenharia e Construção que já realizam projetos com o uso do BIM é extremamente benéfica e sinérgica. A ISO 19650 é representativa da possibilidade de “criar um processo que hoje nós ainda não temos, de definirmos responsabilidades de cada pessoa chave, de cada elemento, de cada elo do processo, de modo integrado e sistêmico”, afirma o arquiteto urbanista Gustavo Carezzato, relator da ABNT NBR ISO 19650 e membro do Conselho Interino do BIM Fórum Brasil - BFB.


Contextualização

Resultante de iniciativa empenhada pelo governo britânico, a PAS 1192 definiu diretrizes e padrões para o uso do BIM no contexto do Projeto Crossrail e desde então têm direcionado o processo do desenvolvimento e da gestão das informações de projetos realizados no Reino Unido. A ISO 19650 deriva da PAS 1192.


A ISO 19650

Em fase de elaboração, a ABNT NBR ISO 19650 foi intitulada: “Organização da informação da construção – Gestão da informação usando modelagem da informação da construção” – indicativo de que ‘informação’ é uma palavra-chave para a compreensão do conteúdo da norma. Neste sentido, a ISO 19650 traz foco para a normalização na área de gestão das informações. Entre outros temas de interesse, apresenta procedimentos e rotinas relacionados aos processos de contratações, bem como de produção e intercâmbio de informações produzidas por equipes multidisciplinares já contratadas - em processo de trabalho integrado, até chegar às etapas finais de entregas e possíveis manutenções posteriores.


A princípio, o trabalho de tradução da ISO 19650 contempla seis partes, trata-se de conteúdo que poderá expandir. A primeira parte serve como base de referência terminológica e conceitual. A segunda e terceira partes cobrem as duas fases principais nas quais o ciclo de vida do ativo é dividido: a fase do desenvolvimento (concepção, projeto e construção) e a fase de operação, que vai do início até o final da vida útil do ativo imobiliário – edificação construída. A quarta e quinta partes apresentam conteúdo detalhado sobre os aspectos específicos da circulação e custódia de informações digitais quando se utiliza o BIM. Já a sexta parte versa sobre saúde e segurança do trabalho.


No âmbito da ABNT, as atividades do Grupo de Trabalho (GT) no qual atua Carezzato estiveram centradas nas duas primeiras partes da ISO 19650. O GT se debruçou na tradução literal da norma em um primeiro momento e agora trabalha no desenvolvimento de Práticas Recomendadas. Esta é uma ação relativamente nova da ABNT que visa a adaptar a abrangência de uma ISO às necessidades encontradas no país. “Já iniciamos os trabalhos para a produção da Prática Recomendada sobre o ambiente comum de dados (CDE). Vamos explicar o que é, para que serve, quais são as características mínimas a se considerar, se ele tem que ser apenas uma solução ou mais de uma. Um segundo documento será a Prática Recomendada para contratações, que abordará o levantamento de práticas atuais e apresentará sugestões de adaptação das mesmas para que estejam aderentes ao que é solicitado na ISO”, expõe Carezzato.


Espinha dorsal

É preciso deixar claro que a ISO 19650 não veio impor barreiras aos projetistas e profissionais do setor de AEC - Arquitetura, Engenharia e Construção, pelo contrário, a normalização irá facilitar os processos. Muitos pensam que aderir à norma significa começar do zero, não é isso. Precisamos nos desfazer deste mito. Nas palavras de Carezzato, a norma é como “uma espinha dorsal do que deve ser feito”. E adaptando os processos já existentes ao que é recomendado pela ISO, cada empresa continuará livre para escolher as ferramentas e sistemas que melhor atenderão seus objetivos e se adaptarão à sua infraestrutura.


Entre os pontos importantes a se destacar, fundamentalmente a ISO 19650 estabelece as responsabilidades de todos os envolvidos, inclusive do contratante do projeto. Por exemplo, em contratos de ampliação e reformas, a responsabilidade de fornecer todos os dados necessários para que as empresas interessadas na licitação possam ter a dimensão correta do trabalho a ser feito e assim precificá-lo é do contratante. Outra novidade é que a ISO indica que uma versão do plano de execução com o uso do BIM seja entregue ainda na fase da licitação de projetos para obras públicas, o que facilita o processo para o contratante, bem como para todos os projetistas interessados na licitação.


Outro benefício resultante da adoção da ISO 19650 é a oportunidade de internacionalizar projetos brasileiros com mais facilidade. “Independentemente do tamanho do seu negócio, implantando a ISO, seu escritório estará adequado a trabalhar com qualquer tipo de projeto, seja ele pequeno, médio ou grande, com qualquer grau de complexidade, não só no Brasil como em qualquer lugar do mundo”, esclarece Carezzato. “O mercado mundial está se adequando rapidamente para a normalização de práticas quando o assunto é projetar com o uso do BIM, aqui no Brasil não será diferente”, ele finaliza.